Território Kewa Matamba

Kewá Matamba é um território ancestral do Kilombu Manzo Ngunzo Kaiango, localizado aos pés da Serra do Curral, em Belo Horizonte. Há tempos, esse território é utilizado por nossa comunidade como espaço sagrado e guarda elementos fundamentais para nossa cultura, nossa espiritualidade e nossa ancestralidade. Nossa relação com Kewá Matamba não nasce da propriedade da terra, mas do vínculo construído entre nossa comunidade, nossos ancestrais e a natureza.

Ao longo dos anos, enquanto a cidade avançava sobre a Serra do Curral e a mineração ameaçava suas matas, águas e nascentes, seguimos defendendo o território e afirmando nosso direito de existir nele. Para nós, proteger Kewá Matamba é também proteger a Serra, as águas, a qualidade do ar e a vida de toda a população de Belo Horizonte e da Região Metropolitana.

Em 2024, depois de nossos pedidos formais ao poder público não serem atendidos, decidimos realizar a retomada histórica de Kewá Matamba e demarcar, com nossas próprias mãos, o território que reconhecemos como nosso por direito. Com o apoio do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas e da Teia dos Povos de Minas Gerais, ocupamos o território e reafirmamos publicamente nossa reivindicação pela sua demarcação.

A retomada também revelou as contradições em torno da propriedade formal da área. Em 24 de maio de 2024, representantes da Fundação Benjamin Guimarães, responsável pelo Hospital da Baleia, e da Polícia Militar de Minas Gerais estiveram em Kewá Matamba para contestar nossa presença. Naquele momento, reafirmamos que nossa relação com o território é anterior às disputas formais de propriedade e que nosso direito de posse deve ser reconhecido pelas instituições.

A mobilização também trouxe à tona a dimensão socioambiental de nossa luta. Kewá Matamba integra uma área fundamental para a preservação da Serra do Curral, e sua proteção interessa a toda a cidade. A preservação das matas e dos cursos d’água contribui para a qualidade do ar, para a manutenção da temperatura e para a proteção da vida em uma região cada vez mais afetada pela destruição ambiental e pelas ondas de calor.

A luta por Kewá Matamba também está ligada à história das violências sofridas pelo Kilombu. Em 2012, a Prefeitura de Belo Horizonte realizou um despejo ilegal no território onde nossa comunidade estava fisicamente estabelecida, localizado aproximadamente 800 metros de Kewá Matamba. A ação provocou a separação de famílias, aumentou a vulnerabilidade social de diversos moradores e contribuiu para o avanço do desmatamento na região. A própria dimensão reduzida do espaço onde hoje estamos fisicamente, de apenas 360 m², não é suficiente para acolher todas as famílias e manter nossas práticas tradicionais.

Após a retomada, foi proposta uma mesa de negociação entre o Kilombu Manzo Ngunzo Kaiango e a Fundação Benjamin Guimarães. Para que as negociações avançassem, foi solicitado que deixássemos provisoriamente o território. Decidimos então sair fisicamente do espaço naquele momento, sem abrir mão de nosso direito sobre Kewá Matamba. Nossa retirada foi uma escolha dentro de uma estratégia de negociação, e não o abandono do território.

Nossa bandeira foi hasteada, nossos pontos foram firmados e nossos umbigos estão plantados no pé de Jatobá. Por isso, Kewá Matamba continua sendo território do Kilombu Manzo Ngunzo Kaiango. A terra permanece guardada pela nossa ancestralidade e pela força de nossa comunidade.

Seguimos em negociação e continuamos firmes na disposição de reocupar o território quantas vezes forem necessárias para que nossos direitos sejam respeitados e Kewá Matamba seja efetivamente demarcado. Nossa luta é pela defesa das Serras, Matas e Águas das Gerais, contra a destruição provocada pela mineração e pela garantia dos direitos de todos os Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil.

Kewá Matamba permanece. Nossa luta continua. E nossa ancestralidade segue guiando nossos passos.

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