Somos o Kilombu Manzo Ngunzo Kaiango. Nossa história nasce da ancestralidade e da comunidade. Antes de qualquer reconhecimento oficial, já existíamos como um território de acolhimento, espiritualidade, cuidado e transmissão da vida.
Na década de 1970, Pai Benedito firmou a Senzala de Pai Benedito, missão acolhida por nossa matriarca, Mam’etu Muiandê, que reuniu a comunidade em torno dos ensinamentos ancestrais e do compromisso de cuidar das pessoas. Foi assim que começamos a construir nosso caminho aos pés da Serra do Curral, em Belo Horizonte, fazendo do território um lugar onde a vida pudesse florescer em comunidade.
Ao longo dos anos, novas famílias chegaram. Crianças cresceram entre o terreiro, as matas, as águas e os quintais. Compartilhamos o alimento quando ele era pouco, celebramos quando havia fartura e aprendemos que ninguém atravessa as dificuldades sozinho. Nossa força sempre esteve na comunidade. Cada pessoa que encontrou abrigo no Manzo também ajudou a construir nossa história.
Vivemos muitas transformações na cidade. Vimos a expansão urbana avançar sobre as matas, assistimos à destruição de nascentes, enfrentamos o racismo, a intolerância religiosa e sucessivas tentativas de romper nossos modos de vida. Em 2007, fomos certificados pela Fundação Cultural Palmares como Comunidade Remanescente de Quilombo, reconhecimento que reafirmou aquilo que nossa ancestralidade já havia firmado muito antes: somos um Kilombu porque preservamos nossa organização comunitária, nossa memória e nossos modos próprios de existir.
Em 2012, sofremos uma das maiores violências contra nossa comunidade. Um despejo promovido pelo poder público separou famílias, descaracterizou parte de nosso território e atingiu espaços fundamentais para a continuidade de nossas práticas tradicionais. Mesmo diante dessa ruptura, permanecemos unidos. Aprendemos, mais uma vez, que nosso território não vive apenas nas construções, mas nas relações que cultivamos entre pessoas, ancestralidade e natureza.
Nossa caminhada sempre esteve ligada à defesa da Serra do Curral. Para nós, proteger as matas, as águas, as folhas e todos os seres que habitam esse território é também proteger nossa própria existência. Por isso, nossa luta dialoga com outros Povos e Comunidades Tradicionais, movimentos populares e todas as pessoas



Em 2024, demos mais um passo nessa caminhada ao realizar a retomada ancestral de Kewá Matamba, território historicamente ligado ao Manzo e fundamental para a continuidade de nossos modos de vida. A retomada reafirmou aquilo que nossos ancestrais sempre nos ensinaram: território não é propriedade. É pertencimento, memória, responsabilidade e compromisso com as futuras gerações.
Hoje seguimos fortalecendo nossa comunidade por meio da educação, da cultura, da preservação de nosso patrimônio, da formação das juventudes, da comunicação comunitária e da transmissão dos saberes ancestrais. Nossa história continua sendo escrita todos os dias por cada pessoa que chega para aprender, cuidar, ensinar e caminhar conosco.
O Kilombu Manzo Ngunzo Kaiango permanece vivo porque nossa ancestralidade continua nos guiando. Seguimos firmando nossos passos, cuidando do território e preparando o caminho para que as próximas gerações encontrem aqui o mesmo compromisso que recebemos de nossos mais velhos: fazer da comunidade um lugar onde toda vida possa florescer.
Seguimos firmes, porque a Ngoma continua chamando.